quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Reflexões sobre o sofrimento


Fugir do sentimento equivaleria a se ausentar da própria vida e de si mesmo.

Angustias impensáveis, tristeza, desespero, decepção, abandono, solidão, falta de amor, baixo auto-estima, traumas... Longa é a lista de emoções que geram sofrimento emocional. Fugir deles? Seria muito bom se pudéssemos fazer isso sem maiores conseqüências, que houvesse uma tecla que apertássemos e pronto, deleted; ou até mesmo uma cirurgia superespecializada para extirpar aquilo que nos faz sofrer; e o mundo todo poderia ser diferente, um paraíso idealizado onde tudo funcionasse, onde todos fossem bons e honestos, onde banco não cobrasse juros do cheque especial, onde não houvesse transito, traições e guerras onde nossas necessidades fossem atendidas prontamente. Mas não é assim. Não dá para fantasiar, porque até mesmo aquele livro que eu gosto, a novela, ou a história do conto de fadas só faz sentido porque há drama, há sentimentos dos bons, dos ruins, dos insossos, há lutas, há vitórias, há derrotas, há vida, há morte, há dor e há prazer.(...)
Mas até para sofrer precisamos ter aparato, estrutura e saber que podemos atravessar a dor e sair dessa travessia mais humanos, fortalecidos e criativos. (...)
A primeira vez que ouvi isso em minha sessão de análise, achei interessante o discurso. Pensei comigo: “mas eu já sofri tanto, já passei por cada uma e não estou me sentindo necessariamente mais humana, fortalecida e criativa com isso. Na verdade estou cansada, farta (...)”, mas existia um fato irrefutável. Estava novamente ali sofrendo, angustiada e mesmo depois de episódios anteriores da minha vida, parecia ainda não ter aprendido a lidar com isso, ou comigo, ou com o meu próprio sofrimento. Na verdade descobri que era especialista em fugir dele, em mudar realidades, em ocupar minha mente com atividades intelectuais, em construir novos cenários e fazia tudo da melhor maneira possível, mas o incansável me perseguia. Na verdade estava sempre comigo porque era meu. Meu sofrimento, minha dor. (...)
Ainda não sou uma especialista em atravessar tempestades no deserto das dores, e, para falar a verdade, não almejo ser. Contudo, agora sei que posso atravessá-las, saio mais fortalecida delas, mais apossada de mim e com menos medo. As travessias são mais curtas, pois estou aprendendo a lidar com o deserto e as tempestades.

Por Maristela Vendramel Ferreira – Revista Ciência & Vida – Psique.

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